9.8.07

Sensibilidade 6.ª coluna

Com Death Proof - onde o Ricardo Gross num puro gesto de amiguismo diz encontrar uma sensibilidade do tipo 6ª Coluna - volta o interesse pelo cinema de género e baixo orçamento. Para começo de conversa, aconselho este livro, de Laurent Aknin. Duzentas e tal entradas sobre outras tantas figuras da série b à série z. Na capa, uma fotografia de L'Isola degli Uomini-Pesce com a anti-tarantiniana Barbara Bach levada em braços por uma espécie de Darth Vader aquático.

Barcelona

Passei três dias em Barcelona e reparei que a cidade está mais 'cosmopolita' do que nunca. Aos Gaudis e malabaristas juntam-se agora, a cada esquina, em cada passeio, os casais gay, as bicicletas, os estudantes americanos e as lojas e lounges com adereços cor-de-laranja. Por causa dos americanos, lembrei-me várias vezes do Barcelona, de Whit Stillman, que vi há uns meses e de que não gostei mesmo nada. O viciante refrão de Young Folks ocorreu-me frenquenetmente, talvez por, na minha cabeça, esta música ser dos I’m from Barcelona (que na realidade não são de Barcelona) e não, como de facto é, de Peter Bjorn And John. No meio disto, devido à proximidade das intercalares de Lisboa, passei demasiado tempo em maçadoras comparações de “cariz urbanístico”, com Barcelona, em regra, a levar a melhor. As imagens e sons, os tiques de raciocínio e reflexos pavlovianos em que me emaranhei, fizeram desta Barcelona um lugar mental algo cansativo. Cosmopolitanismo pós-qualquer coisa, jovem e bem disposto, de braços abertos para a festa. Acresce que, como faço em todas as cidades para onde viajo fora de Portugal, fartei-me de andar a pé. Só que, por motivos nobres como só os familiares hoje em dia são, tive que encurtar para menos de metade a largura da minha passada habitual. Ao cansaço cerebral somou-se o físico. Barcelona, nesta altura do ano, com trinta e muitos graus, apenas se justificou por motivos logísticos – foi porto de partida e chegada de um barco por onde andei. Mas, passada uma semana e dissipados estes factores em boa medida pessoais e intransmissíveis, olho para esta viagem com a sensação idêntica à daqueles sonhos em que voamos sobre a copa das árvores. A ideia com que fico é que tanto fez ter sido Barcelona como outro sítio qualquer, esta Barcelona adolescente, dos Stillman ou Bjorns, ou a monumental, ou a medieval, de pedra gótica e ruas estreitas, ou a espanhola, dos cartazes desbotados nas esplanadas das Ramblas a anunciar paelhas com péssimo aspecto, ou a radical e moderna de Mies Van der Rohe. Foram três grandes dias. Barcelona não foi mais que o pano de fundo onde o que fica se passou.

7.8.07

Jazz em Agosto (de 1979)


Essa categoria adorável que é o free jazz para intelectuais esquerdistas de sensibilidade europeia acabou há cerca de trinta anos. Depois disso, Lester Bowie voltou-se para trás, para Louis Armstrong, para New Orleans, para o east of East St. Louis de que Tom Waits fala.

14.7.07

4.7.07

Escravos das galés

Quando lhe perguntaram o inevitável - se, ao escrever, as suas personagens ganhavam vida própria e ditavam o curso dos seus romances - Nabokov respondeu: "as minhas personagens são escravos das galés".

Spice Milfs

Os quartos e as salas onde passámos muito tempo, os corredores por onde passámos muitas vezes , dão origem a memórias fortes e recorrentes. Abandonados os lugares, com o avançar dos anos, essas memórias vão-se esbatendo, ao ponto de só ocorrerem imediatamente antes de adormecer ou já durante o sono. Até que um dia, quando regressamos aos locais habitados na infância, o termo de comparação já não é a memória que deles tivemos mas a imagem difusa em que os sonhos os transformaram.

Um pouco de equidade

Fascismo higiénico, nacional-socialismo antitabagista, pinochetismo gastronómico, franquismo sanitário, portismo dentário. Por que não, uma vez por outra, comunismo, estalinismo, maoismo, Kim Il-sungismo, major tomezismo ...?

21.6.07

Reviver o passado em Brideshead, de Evelyn Waugh, está arrumado no escaparate gay e lésbico da Fnac. Digamos que é uma espécie de "Plano Nacional de Leitura" meets "Formação contra a homofobia" em versão off-arraial.

Depois de Gershwin, Ellington, Sinatra, Garfunkle, Lou Reed

O Martin Parr que há em mim




Nice (mas não de nice), Junho de 2007, domingo.

20.6.07

No início de Little Big Man, de Arthur Penn, paira uma das mais neilyoungescas e adoráveis ideias do Cinema. Um velho muito velho diz para o homem que o está a entrevistar "Turn that thing on!" ("that thing" é um gravador de fitas), e depois, ao mesmo tempo que a imagem passa para as grandes planícies do Missouri, começa: "one hundred eleven years ago, when I was ten years old, my family was wiped out by a bunch of indians...". One hundred eleven years ago, when I was ten ... O homem tinha cento e vinte e um anos.

17.6.07

Às tantas, no imperdível programa dos Quase Famosos (ouvir aqui), o Nuno Costa Santos lança a pergunta ao Pedro Adão e Silva: qual é o Neil Young que preferes?
É uma das perguntas mais difíceis que conheço. Eu gosto de todos os Neil Young do mundo - do baladeiro, do rockeiro, do para cantar a volta da fogueira e do eléctrico, com ou sem Crazy Horse, do rural e do citadino, do político e do romântico, e até daqueles discos embaraçantes da década de 80, como Re-a-ctor, Landing on Water ou Life. Mas, a ter que escolher um - um só - escolheria, talvez, Rust Never Sleeps. Porque sintetiza bem toda a carreira de Neil Young (começa acústico e a solo e segue com os Crazy Horse), porque tem a melhor canção jamais escrita sobre o declínio de uma geração (Thrasher), porque alcança, em duas versões, o zenite do rock 'n' roll (My my, hey ... hey, my my), e porque é lá que se encontram os quinze segundos iniciais de música que mais vezes por dia me vêm à cabeça. Estes:

16.6.07

Três não obscuros objectos do desejo trazidos de Cannes: o histórico 50 ans de Cinéma Américain, de Jean-Pierre Coursodon e Bertrand Taverier; Le Cinéma américain des années 70, de Jean-Baptiste Thoret; e o documentário Midnight Movies - from the margin to the mainstream, realizado por Stuart Samuels.
O primeiro - que já conhecia bem na sua versão 30 ans de ... - confirma a competência dos franceses a escrever sobre cinema clássico americano. O documentário deixa-se ver mas não dispensa a leitura do livro homónimo, de Jim Hoberman e Jonathan Rosenbaum, a partir do qual foi adaptado. Agora, o livro de Jean-Baptiste Thoret tem sido uma belíssima surpresa. Contava lê-lo de forma salteada e a verdade é que, desde que lhe peguei, ainda não consegui pousá-lo. É certo que o meu interesse pelo cinema dos anos 70 tem crescido - com uma mão a tapar a cara, admito que já faltou mais para encomendar a obra completa do Hal Ashby - mas este livro, para além do tema, para além da fluência da escrita, é brilhante na forma como entra nos filmes dos movie brats e companhia, relacionando temáticas, realçando marcas estéticas, confrontando as linhas mestras do cinema da década de setenta com as do cinema do pós-guerra, e dando um retrato bem mais substancial do que o de Easy Riders, Raging Bulls: How the Sex, Drugs and Rock 'N' Roll Generation Saved Hollywood, de Peter Biskind.

14.6.07

O que é feito de Pamela Anderson?




Fotografias de Marilyn Minter para o último número da Pakett.


Meu amigo, o segredo - que não é segredo nenhum - é jantar tarde, chegar muito tarde, e não deixar nunca, mas mesmo nunca, que o chinês ou a velha matreira que espreitam pelas nossas costas deitem as mãos à máquina* onde jogamos. Para isso, convém, sempre que se vai buscar guardanapos, bloqueá-la pondo as chaves na ranhura das moedas.

(* A máquina de que falo não é uma fruit-machine qualquer. Não tem cerejas, nem cifrões, nem laranjas, nem ferraduras, nem double bar, mas apenas "bares", "melancias" e "setes". O mínimo que se ganha com uma combinação ganhadora é vinte vezes o que se apostou ("single bar" nas três colunas, jogando com uma só moeda). E é por as probabilidades de dar dinheiro serem bastante mais altas que já são poucos os casinos onde esta máquina existe)

12.6.07

Em Cannes

Direita dura

e direita mole (numa edição melhor).

Côte D’Azur - notas culturais

Casino: só vou a casinos a milhares - vá lá, centenas - de quilómetros de casa. A máquina de que mais gosto é simples e rara. Só tem três combinações ganhadoras: três “Bar”, três “melancias” ou três “setes”; todas as outras dão zero. É também a única máquina que conheço onde se pode jogar de uma forma quase racional. Como na banca francesa, é possível dentro da aleatoriedade encontrar tendências e constantes. Por exemplo, se sair uma combinação ganhadora depois de um período em que não saiu nada, é provavel que nas dez jogadas seguintes essa combinação saia mais uma, duas ou três vezes (é o chamado “chorrilho”). Também é importante deixar a máquina descansar. As pausas de cinco a dez minutos tornam-na mais generosa. Por isso, ganha-se eficácia ao jogar em duas ou mais ao mesmo tempo. É, ainda, uma máquina com que se pode ter um diálogo mental. Já estou com saudades.

Carne: em França, sê carnívoro. Na Provença, sê carnívoro sanguinário. Fois gras, bife tártaro ou, na pior das hipóteses, extremamente mal passado.

La Croisette: um passeio de excêntricos estéticos. Nós, por cá, há anos que nos ficamos pelos blazers do André Gonçalves Pereira.

Jogo: num casino, uma velhota sente-se mal e estatela-se no chão. Durante uns segundos, as pessoas que estão à sua volta páram de jogar e olham-na. Só uma sai do lugar para ver o que se passa. Pouco depois, garantida que está a ajuda, todas as outras viram a cara e voltam ao jogo. No chão, enquanto não chegam os médicos, a velha expele golfadas de sangue. Não se ouve nada a não ser o barulho das moedas a bater no tabuleiro das slot-machines.

Praia: Taormina, as ilhas gregas, Ibiza - as margens norte do Mediterrâneo são uma montra de orgulho e prepotência sexual. A Côte D’Azur não é excepção. Há uma saudável falta de vergonha e uma alegria em olhar e ser olhado. Para o bem e para o mal, as nossas praias têm mais areia e muito mais pudor.

Hotéis: a velha Europa é também a Europa dos grandes hotéis históricos: do Carlton ao Martinez ao Negresco ao Maeterlinck ao Hermitage. Hotéis belle époque, estilo art deco, onde se passam filmes do Hitchcock, e que inspiraram outros hotéis art deco – como o Copacabana Palace – onde se passam outros filmes do Hitchcock.

Mar: Azul-turquesa, mas com boas livrarias por perto.

Mónaco: demasiado dinheiro e carros bons para tão pouco espaço.

Noite: Tender is the Night tem passagens em Cap d’Antibes. Mas, na Europa do Sul, as mulheres há muito deixaram de ser passivas. Andam de mãos dadas. Vestem-se para despir. Tomam a iniciativa. Marcam o território.

Noite (2): Cars & girls, como na música dos Prefab Sprout.

5.6.07

Penso num dia bem programado e penso em Mishima. Segundo reza a história (ou será a lenda?), na madrugada do dia 25 de Novembro de 1970, acabou de escrever O Mar da Fertilidade e, nessa manhã, enviou a prova para o editor. À tarde, suicidou-se.