7.10.07

Já no outro jogo, nada de novo a assinalar

A França e a sua irritante mania de repetir a História e eliminar o Brasil dos campeonatos do mundo.

6.10.07

Confesso que à partida para este mundial estava com pouca pachorra para a Inglaterra. Fez um torneio das seis nações preguiçoso e, de há uns anos para cá, tem-se especializado num rugby macilento, muito dependente dos drops e penalidades do Jonny Wilkinson. Na primeira fase do mundial, confirmou-se aquilo que se esperava. A inglaterra jogou feio, foi vulgarizada pelos springboks, e só ganhou às equipas do Pacífico Sul - lá está - graças ao rigor de Jonny Wilkinson. Hoje, porém, contra a Austrália, os ingleses transfiguraram-se. Recuperaram não sei quantas bolas, inventaram belíssimas jogadas à mão, e conseguiram empurrar o jogo sistematicamente para o campo australiano. Wilkinson resolveu, mas o mérito da vitória vai todo para o pack da frente. Pareciam cruzados na Galileia. Os australianos, atarantados, pouco puderam fazer. George Gregan (o preto mais "beto" do campeonato) esteve enervante e enervado; Mortlock, um desastre nos pontapés; e Lote Tuquiri, com a equipa toda a marrar na retaguarda, andou desaparecido. Entretanto, um outro jogador discreto mas eficaz começa a povoar os sonhos homoeróticos da plateia medievo-fetichista ...


5.10.07

Being Hiroshi Sugimoto





Duas patéticas tentativas de imitar as fotografias de Hiroshi Sugimoto, na série seascapes. Estas foram tiradas no mar Tirreno, perto de Capri, em Julho passado.

3.10.07

o monólogo de Aguirre

I am the great traitor. There must be no other. Anyone who even thinks about deserting this mission will be cut up into 198 pieces. Those pieces will be stamped on until what is left can be used only to paint walls. Whoever takes one grain of corn or one drop of water... more than his ration, will be locked up for 155 years. If I, Aguirre, want the birds to drop dead from the trees... then the birds will drop dead from the trees. I am the wrath of god. The earth I pass will see me and tremble. But whoever follows me and the river, will win untold riches.

Claro que isto em alemão tem muito mais pinta.

30.9.07

Rio sem regresso

Nas primeiras imagens, a neblina espalha-se pelas montanhas e selvas do Novo Mundo. Em fila indiana, lamas, soldados e escravos, carregando às costas com canhões e donzelas, avançam em busca do El Dorado. É a expedição de Pizarro, a descer os Andes, tal como Werner Herzog a pensou e filmou em Aguirre, a cólera dos deuses, ou o mais onírico e fantasmagórico dos filmes.

Segundo reza a História, Ian Curtis ter-se-á suicidado depois de rever Stroszek, do mesmo Herzog. Aguirre não dá para isso. Klaus Kinski é um explorador exemplar. Com o seu ar alucinado, longe do Actors Studio, busca a imortalidade. Para ele, a morte só é admissível após cumprir a missão. E uma vez cumprida a missão não haverá morte capaz de o matar. Aguirre é um totalitário e um louco porque não admite recuos racionais perante a lucidez da (sua) vontade. Se, em 18 de Maio de 1980, Ian Curtis tivesse visto Aguirre, mesmo sem El Dorado à vista, em vez de suicidar-se teria eliminado, um a um, todos os seus companheiros dos Joy Division.

Em muitas medidas, este filme antecipa Apocalypse Now. Lá está o rio e o seu curso como desígnio. Lá está a selva, e os seus perigos, como ameaça. Lá está a insanidade como processo de descoberta. E lá estão os fantasmas e os sonhos, no fim, como escape. "I watched a snail crawl along the edge of a straight razor. That's my dream. That's my nightmare. Crawling, slithering, along the edge of a straight razor ... and surviving", dizia o Coronel Kurtz perdido no seu labirinto. Ou, como disse uma das personagens de Aguirre, agarrada à perna cravejada de flechas: "isto não é uma jangada. Aquilo não é uma floresta. Isto não é uma flecha. Nós só imaginamos flechas porque as tememos ...".

Wire über alles


Na capa deste mês, Robert Wyatt, separado à nascença de Donald Sutherland, Orson Wells e Walt Whitman.

Já não me lembro se fui eu, se foi alguém por mim, que disse que preferia pornografia ao erotismo estilizado a preto e branco. Seja como for, Nobuyoshi Araki é um mundo à parte.

20.9.07

A contra-revolução que veio de dentro

Há o antigo regime e há a revolução. E depois há este artigo do Rui Ramos, que, pelo conteúdo e pelo tom, funciona como uma espécie de thermidor português na guerra de opiniões sobre a guerra do Iraque.

17.9.07

16.9.07

Os chabals também se abatem (II)

O segundo ensaio de Chabal, no jogo de hoje contra a Namibia, fez-me lembrar Colossal Youth - quem conhece os Young Marble Giants, sabe do que estou a falar. Em poucos segundos, toda a energia do mundo ali concentrada .

10.9.07

Os chabals também se abatem

Dos fracos

Dos fracos não reza a História. Errado. Dos fracos, como figurantes ou actores secundários, reza a História dos fortes.

Choque ideológico

Velvet, Magic Band, os primeiros Roxy Music. Cada vez mais me convenço de que a melhor música pop nasce do choque ideológico.

O povo livre contra o "capitalista colectivo"

A conversa de alguns “liberais” assemelha-se a uma tradução ordinária e apressada da teoria da luta de classes. Em vez de proletariado ou classe oprimida há “cidadãos”, “pessoas”, “indivíduos”. Em vez de burguesia ou classe opressora há o Estado com letra maiúscula. O Estado dedica-se a explorar o cidadão, ficando-lhe com a mais-valia. O bom do cidadão é consumido a tentar libertar-se das garras estatais. Uma luta heróica que esperam poder conduzir a uma sociedade sem Estado, assente no pressuposto do bom selvagem, hoje transformado em homem de mérito, negócios e livre iniciativa. Curiosos, estes “liberais”. No meio de tanta dialéctica marxista nunca lhes ocorreu que, no dia em que o Estado acabasse, eles seriam dos primeiros a ficar sem cabeça.

21.8.07

Produtos naturais

O progressivo aumento da esperança média de vida (e da qualidade dessa vida) é uma vitória da química sobre a natureza no seu estado natural.

9.8.07

Sensibilidade 6.ª coluna

Com Death Proof - onde o Ricardo Gross num puro gesto de amiguismo diz encontrar uma sensibilidade do tipo 6ª Coluna - volta o interesse pelo cinema de género e baixo orçamento. Para começo de conversa, aconselho este livro, de Laurent Aknin. Duzentas e tal entradas sobre outras tantas figuras da série b à série z. Na capa, uma fotografia de L'Isola degli Uomini-Pesce com a anti-tarantiniana Barbara Bach levada em braços por uma espécie de Darth Vader aquático.

Barcelona

Passei três dias em Barcelona e reparei que a cidade está mais 'cosmopolita' do que nunca. Aos Gaudis e malabaristas juntam-se agora, a cada esquina, em cada passeio, os casais gay, as bicicletas, os estudantes americanos e as lojas e lounges com adereços cor-de-laranja. Por causa dos americanos, lembrei-me várias vezes do Barcelona, de Whit Stillman, que vi há uns meses e de que não gostei mesmo nada. O viciante refrão de Young Folks ocorreu-me frenquenetmente, talvez por, na minha cabeça, esta música ser dos I’m from Barcelona (que na realidade não são de Barcelona) e não, como de facto é, de Peter Bjorn And John. No meio disto, devido à proximidade das intercalares de Lisboa, passei demasiado tempo em maçadoras comparações de “cariz urbanístico”, com Barcelona, em regra, a levar a melhor. As imagens e sons, os tiques de raciocínio e reflexos pavlovianos em que me emaranhei, fizeram desta Barcelona um lugar mental algo cansativo. Cosmopolitanismo pós-qualquer coisa, jovem e bem disposto, de braços abertos para a festa. Acresce que, como faço em todas as cidades para onde viajo fora de Portugal, fartei-me de andar a pé. Só que, por motivos nobres como só os familiares hoje em dia são, tive que encurtar para menos de metade a largura da minha passada habitual. Ao cansaço cerebral somou-se o físico. Barcelona, nesta altura do ano, com trinta e muitos graus, apenas se justificou por motivos logísticos – foi porto de partida e chegada de um barco por onde andei. Mas, passada uma semana e dissipados estes factores em boa medida pessoais e intransmissíveis, olho para esta viagem com a sensação idêntica à daqueles sonhos em que voamos sobre a copa das árvores. A ideia com que fico é que tanto fez ter sido Barcelona como outro sítio qualquer, esta Barcelona adolescente, dos Stillman ou Bjorns, ou a monumental, ou a medieval, de pedra gótica e ruas estreitas, ou a espanhola, dos cartazes desbotados nas esplanadas das Ramblas a anunciar paelhas com péssimo aspecto, ou a radical e moderna de Mies Van der Rohe. Foram três grandes dias. Barcelona não foi mais que o pano de fundo onde o que fica se passou.

7.8.07

Jazz em Agosto (de 1979)


Essa categoria adorável que é o free jazz para intelectuais esquerdistas de sensibilidade europeia acabou há cerca de trinta anos. Depois disso, Lester Bowie voltou-se para trás, para Louis Armstrong, para New Orleans, para o east of East St. Louis de que Tom Waits fala.

14.7.07

4.7.07

Escravos das galés

Quando lhe perguntaram o inevitável - se, ao escrever, as suas personagens ganhavam vida própria e ditavam o curso dos seus romances - Nabokov respondeu: "as minhas personagens são escravos das galés".

Spice Milfs

Os quartos e as salas onde passámos muito tempo, os corredores por onde passámos muitas vezes , dão origem a memórias fortes e recorrentes. Abandonados os lugares, com o avançar dos anos, essas memórias vão-se esbatendo, ao ponto de só ocorrerem imediatamente antes de adormecer ou já durante o sono. Até que um dia, quando regressamos aos locais habitados na infância, o termo de comparação já não é a memória que deles tivemos mas a imagem difusa em que os sonhos os transformaram.

Um pouco de equidade

Fascismo higiénico, nacional-socialismo antitabagista, pinochetismo gastronómico, franquismo sanitário, portismo dentário. Por que não, uma vez por outra, comunismo, estalinismo, maoismo, Kim Il-sungismo, major tomezismo ...?

21.6.07

Reviver o passado em Brideshead, de Evelyn Waugh, está arrumado no escaparate gay e lésbico da Fnac. Digamos que é uma espécie de "Plano Nacional de Leitura" meets "Formação contra a homofobia" em versão off-arraial.

Depois de Gershwin, Ellington, Sinatra, Garfunkle, Lou Reed

O Martin Parr que há em mim




Nice (mas não de nice), Junho de 2007, domingo.

20.6.07

No início de Little Big Man, de Arthur Penn, paira uma das mais neilyoungescas e adoráveis ideias do Cinema. Um velho muito velho diz para o homem que o está a entrevistar "Turn that thing on!" ("that thing" é um gravador de fitas), e depois, ao mesmo tempo que a imagem passa para as grandes planícies do Missouri, começa: "one hundred eleven years ago, when I was ten years old, my family was wiped out by a bunch of indians...". One hundred eleven years ago, when I was ten ... O homem tinha cento e vinte e um anos.

17.6.07

Às tantas, no imperdível programa dos Quase Famosos (ouvir aqui), o Nuno Costa Santos lança a pergunta ao Pedro Adão e Silva: qual é o Neil Young que preferes?
É uma das perguntas mais difíceis que conheço. Eu gosto de todos os Neil Young do mundo - do baladeiro, do rockeiro, do para cantar a volta da fogueira e do eléctrico, com ou sem Crazy Horse, do rural e do citadino, do político e do romântico, e até daqueles discos embaraçantes da década de 80, como Re-a-ctor, Landing on Water ou Life. Mas, a ter que escolher um - um só - escolheria, talvez, Rust Never Sleeps. Porque sintetiza bem toda a carreira de Neil Young (começa acústico e a solo e segue com os Crazy Horse), porque tem a melhor canção jamais escrita sobre o declínio de uma geração (Thrasher), porque alcança, em duas versões, o zenite do rock 'n' roll (My my, hey ... hey, my my), e porque é lá que se encontram os quinze segundos iniciais de música que mais vezes por dia me vêm à cabeça. Estes:

16.6.07

Três não obscuros objectos do desejo trazidos de Cannes: o histórico 50 ans de Cinéma Américain, de Jean-Pierre Coursodon e Bertrand Taverier; Le Cinéma américain des années 70, de Jean-Baptiste Thoret; e o documentário Midnight Movies - from the margin to the mainstream, realizado por Stuart Samuels.
O primeiro - que já conhecia bem na sua versão 30 ans de ... - confirma a competência dos franceses a escrever sobre cinema clássico americano. O documentário deixa-se ver mas não dispensa a leitura do livro homónimo, de Jim Hoberman e Jonathan Rosenbaum, a partir do qual foi adaptado. Agora, o livro de Jean-Baptiste Thoret tem sido uma belíssima surpresa. Contava lê-lo de forma salteada e a verdade é que, desde que lhe peguei, ainda não consegui pousá-lo. É certo que o meu interesse pelo cinema dos anos 70 tem crescido - com uma mão a tapar a cara, admito que já faltou mais para encomendar a obra completa do Hal Ashby - mas este livro, para além do tema, para além da fluência da escrita, é brilhante na forma como entra nos filmes dos movie brats e companhia, relacionando temáticas, realçando marcas estéticas, confrontando as linhas mestras do cinema da década de setenta com as do cinema do pós-guerra, e dando um retrato bem mais substancial do que o de Easy Riders, Raging Bulls: How the Sex, Drugs and Rock 'N' Roll Generation Saved Hollywood, de Peter Biskind.

14.6.07

O que é feito de Pamela Anderson?




Fotografias de Marilyn Minter para o último número da Pakett.


Meu amigo, o segredo - que não é segredo nenhum - é jantar tarde, chegar muito tarde, e não deixar nunca, mas mesmo nunca, que o chinês ou a velha matreira que espreitam pelas nossas costas deitem as mãos à máquina* onde jogamos. Para isso, convém, sempre que se vai buscar guardanapos, bloqueá-la pondo as chaves na ranhura das moedas.

(* A máquina de que falo não é uma fruit-machine qualquer. Não tem cerejas, nem cifrões, nem laranjas, nem ferraduras, nem double bar, mas apenas "bares", "melancias" e "setes". O mínimo que se ganha com uma combinação ganhadora é vinte vezes o que se apostou ("single bar" nas três colunas, jogando com uma só moeda). E é por as probabilidades de dar dinheiro serem bastante mais altas que já são poucos os casinos onde esta máquina existe)

12.6.07

Em Cannes

Direita dura

e direita mole (numa edição melhor).

Côte D’Azur - notas culturais

Casino: só vou a casinos a milhares - vá lá, centenas - de quilómetros de casa. A máquina de que mais gosto é simples e rara. Só tem três combinações ganhadoras: três “Bar”, três “melancias” ou três “setes”; todas as outras dão zero. É também a única máquina que conheço onde se pode jogar de uma forma quase racional. Como na banca francesa, é possível dentro da aleatoriedade encontrar tendências e constantes. Por exemplo, se sair uma combinação ganhadora depois de um período em que não saiu nada, é provavel que nas dez jogadas seguintes essa combinação saia mais uma, duas ou três vezes (é o chamado “chorrilho”). Também é importante deixar a máquina descansar. As pausas de cinco a dez minutos tornam-na mais generosa. Por isso, ganha-se eficácia ao jogar em duas ou mais ao mesmo tempo. É, ainda, uma máquina com que se pode ter um diálogo mental. Já estou com saudades.

Carne: em França, sê carnívoro. Na Provença, sê carnívoro sanguinário. Fois gras, bife tártaro ou, na pior das hipóteses, extremamente mal passado.

La Croisette: um passeio de excêntricos estéticos. Nós, por cá, há anos que nos ficamos pelos blazers do André Gonçalves Pereira.

Jogo: num casino, uma velhota sente-se mal e estatela-se no chão. Durante uns segundos, as pessoas que estão à sua volta páram de jogar e olham-na. Só uma sai do lugar para ver o que se passa. Pouco depois, garantida que está a ajuda, todas as outras viram a cara e voltam ao jogo. No chão, enquanto não chegam os médicos, a velha expele golfadas de sangue. Não se ouve nada a não ser o barulho das moedas a bater no tabuleiro das slot-machines.

Praia: Taormina, as ilhas gregas, Ibiza - as margens norte do Mediterrâneo são uma montra de orgulho e prepotência sexual. A Côte D’Azur não é excepção. Há uma saudável falta de vergonha e uma alegria em olhar e ser olhado. Para o bem e para o mal, as nossas praias têm mais areia e muito mais pudor.

Hotéis: a velha Europa é também a Europa dos grandes hotéis históricos: do Carlton ao Martinez ao Negresco ao Maeterlinck ao Hermitage. Hotéis belle époque, estilo art deco, onde se passam filmes do Hitchcock, e que inspiraram outros hotéis art deco – como o Copacabana Palace – onde se passam outros filmes do Hitchcock.

Mar: Azul-turquesa, mas com boas livrarias por perto.

Mónaco: demasiado dinheiro e carros bons para tão pouco espaço.

Noite: Tender is the Night tem passagens em Cap d’Antibes. Mas, na Europa do Sul, as mulheres há muito deixaram de ser passivas. Andam de mãos dadas. Vestem-se para despir. Tomam a iniciativa. Marcam o território.

Noite (2): Cars & girls, como na música dos Prefab Sprout.

5.6.07

Penso num dia bem programado e penso em Mishima. Segundo reza a história (ou será a lenda?), na madrugada do dia 25 de Novembro de 1970, acabou de escrever O Mar da Fertilidade e, nessa manhã, enviou a prova para o editor. À tarde, suicidou-se.

31.5.07

Zodiac. É o facto de ser maçador que o torna tão bom. Porque é longo, circunstanciado e meticuloso, o filme consegue passar para o espectador aquilo que as personagens vão sentindo: da curiosidade ao desconforto ao cansaço à angústia ao desespero. E é isso que é o cinema. Numa palavra - como disse Samuel Fuller - emotions.

Whitman XXL. Do tamanho da obra.

28.5.07

Não recordamos dias, recordamos momentos. Por isso - e para além disso -, tentamos fixar instantes, não só para lembrar mais tarde, mas como forma de consciencializar o presente. Uma espécie de cogito ergo sum instantâneo. Ou já uma nostalgia do que ainda está a acontecer. Sucede, por vezes, em alturas de grande euforia, quando se está alcoolizado e se pára para fazer xixi: isto é agora; eu sou eu; eu estou aqui; eu estou feliz.

Paul Bowles, logo no início das suas memórias, tem esta passagem notável:

"Eu estava sentado no baloiço, sob um dos áceres gigantescos, envolto pelos cheiros e sons de uma tarde estival do Massachusetts. Deixei-me cair para trás, pendurado de cabeça para baixo, quase a rasar a relva, e assim fiquei. Nessa altura, um relógio dentro da casa deu as quatro horas. Tudo recomeçou. Eu sou eu, o momento é agora, e estou aqui. O baloiço moveu-se um pouco, deixando-me ver as profundezas verdes de folhas de ácer e, mais acima, o céu incrivelmente azul."

Passo os anos inteiros à espera que o Sporting ganhe qualquer coisa. Mas, no fim do dia, a imagem que fica é a de um grupo de excursionistas da Sertã, estendidos na mata do Jamor, a prepararem-se para assar um porco inteiro meia hora antes do começo do jogo.

24.5.07


Este ofereço eu.

19.5.07

No seu primeiro disco a solo - o brilhante Woke on a Whaleheart - Bill Callahan, em passo country digno do Johnny Cash de Folsom Prison, canta: "a man needs a woman or a man to be a man". Tempos modernos, é o que é.

18.5.07

A propósito da série "infidelidade" do Vasco Barreto, da infidelidade propriamente dita e dos casamentos à la carte, lembro-me do que costuma dizer um amigo: em Espanha ou no meio do Alentejo, especialmente em programas tauromáquicos, não conta. É a chamada cláusula de exclusão taurino-territorial.

Quando ouço falar em grandes orgasmos, penso logo naquele livro do Milo Manara, vagamente inspirado em Jonathan Swift, em que uma mulher gigante passa os dias a masturbar-se numa terra de anões.

16.5.07

A internet pornográfica está a precisar do seu Martin Luther King branco.

Qualificar-se um político como uma pessoa estimável, ponto, equivale a dizer-se de uma mulher que é uma pessoa simpática. Quando não se quer ser desagradável e nada mais há para dizer.

11.5.07

23° Sul/ 44° Oeste


E era meia noite e quarenta e três, hora local

8.5.07

Zona sul

O mundo começou com um Fla-Flu mas pode bem acabar com um Botafogo-Flamengo. Eu estava lá, neste domingo, e vi o que é devoção clubista. Um formigão de quilómetros a caminho do Maracanã, autocarros sitiados com os vidros partidos, polícia militar de metralhadora em riste. O homem que guiava o carro onde ia, gritou: "isto é uma selvajaria, ainda nem começou a partida e já estourou a guerra!". Só que no Rio é difícil falar em selvajaria. O ar que se respira é demasiado relaxado para coisas dessas. Estava calor e um céu azul. Não longe da "guerra", no calçadão, milhares em tronco nu. Esplanadas à pinha em Ipanema. Uma regata na Baia de Guanabara. O Flamengo acabou por ganhar nos penâltis. O mundo não acabou. Mas, se acabasse, seria um belíssimo fim.

27.4.07

Tristes Trópicos

Joanna Newsom no dia 2 e Nurse With Wound no dia 5 ...

Lamentavelmente, vou estar no Brasil.

Frisco prefer blondes (me too)




Vertigo, Basic Instinct, Kim Novak e Sharon Stone. Mas eu conheço uma que a estas junta a Kathleen Turner de Body Heat. É a melhor loira de todos os tempos.

24.4.07

Longe do planeta Terra

Primeiro mandamento: adorar a Deus sobre todas as coisas

O Pedro Adão elogia bem os Animal Collective (provavelmente, o melhor grupo de agora), mas comete sacrilégio quando usa a expressão "sobrevalorizados" para se referir a Smile e a Pet Sounds. Smile e Pet Sounds, Pet Sounds e Smile, só Smile ou só Pet Sounds, apenas um quarto de qualquer um destes, a mera ideia ou a fugaz audição de um acorde dos oitenta e seis minutos e vinte e quatro segundos que são o tempo total dos dois somados, as letras P (for Pet Sounds) ou S (for Smile), um pintelho do Brian Wilson, tudo ou qualquer coisa que tenha a ver com os dois nunca sobejamente referidos discos é perfeito. Tão perfeito que chega a fazer-nos duvidar da perfeição.

Carl Solomon! I'm with you in Rockland
where you're madder than I am
I'm with you in Rockland
where you must feel very strange
I'm with you in Rockland
where you imitate the shade of my mother
I'm with you in Rockland
where you've murdered your twelve secretaries
I'm with you in Rockland
where you laugh at this invisible humor
I'm with you in Rockland
where we are great writers on the same dreadful
typewriter
I'm with you in Rockland
where your condition has become serious and
is reported on the radio
I'm with you in Rockland
where the faculties of the skull no longer admit
the worms of the senses
I'm with you in Rockland
where you drink the tea of the breasts of the
spinsters of Utica
I'm with you in Rockland
where you pun on the bodies of your nurses the
harpies of the Bronx
I'm with you in Rockland
where you scream in a straightjacket that you're
losing the game of the actual pingpong of the
abyss
I'm with you in Rockland
where you bang on the catatonic piano the soul
is innocent and immortal it should never die
ungodly in an armed madhouse
I'm with you in Rockland
where fifty more shocks will never return your
soul to its body again from its pilgrimage to a
cross in the void
I'm with you in Rockland
where you accuse your doctors of insanity and
plot the Hebrew socialist revolution against the
fascist national Golgotha
I'm with you in Rockland
where you will split the heavens of Long Island
and resurrect your living human Jesus from the
superhuman tomb
I'm with you in Rockland
where there are twenty-five-thousand mad com-
rades all together singing the final stanzas of the Internationale
I'm with you in Rockland
where we hug and kiss the United States under
our bedsheets the United States that coughs all
night and won't let us sleep
I'm with you in Rockland
where we wake up electrified out of the coma
by our own souls' airplanes roaring over the
roof they've come to drop angelic bombs the
hospital illuminates itself imaginary walls col-
lapse O skinny legions run outside O starry
spangled shock of mercy the eternal war is
here O victory forget your underwear we're
free
I'm with you in Rockland
in my dreams you walk dripping from a sea-
journey on the highway across America in tears
to the door of my cottage in the Western night

Still this Howling thing

Quarenta e dois anos depois de Ginsberg, vinte e um depois de Christopher Buckley e Paul Slansky na New Republic, é a vez de Alexandre Soares Silva.

19.4.07

Abril é evolução

PCP -> PS -> CEO

18.4.07

Virginia — The West

Explicar massacres como o da Virgínia partindo do pressuposto de que o homem é bom e é a danada da sociedade que o perverte, é ignorância que já nem à Dra. Maria Barroso se desculpa. A História tem dado algumas provas de que o homem não é assim tão bom como isso e, apesar de tudo, as sociedades evoluidas ainda vão sendo aquelas onde a margem para a violência é menor. Seja pela força da lei, seja pelo estímulo do bem-estar, o homem social é em regra menos perigoso que o homem animal; e o homem social, numa sociedade como a americana, é seguramente mais afável que o homem social de uma sociedade primitiva. Tirando isso, parece claro que num lugar onde não existissem armas de fogo ninguém mataria trinta e tal pessoas com uma arma de fogo. Tal e qual como, num lugar onde não existissem pessoas, ninguém mataria pessoas .


E um disco com uma capa assim, é ainda um disco de Bill Evans ou é já um disco de Nico?

17.4.07

E=mc²

Bom... a teoria da relatividade cabia numa folha A4.

15.4.07

Badlands

O western é de todos os géneros cinematográficos aquele que melhor serve para especular sobre os comportamentos humanos. Numa terra sem lei, ou à procura dela, o homem sente-se livre para agir segundo os seus instintos. Instintos que vão desde a simples sobrevivência até outros mais sofisticados, como a generosidade ou a maldade ou a vingança. Os westerns clássicos (Ford, Hawks, Huston) acentuavam os bons sentimentos, os bons instintos, a integridade ético-moral do herói que num ambiente propício à corrupção acabava por escolher o lado bom, ainda que para tal tivesse que usar a violência e o mal. Os fins - e as circunstâncias hostis - acabavam por jutificar os meios. A violência do western é uma violência com sentido. Nessa medida, é uma violência respeitável. Sam Peckinpah foi mais longe e tratou-a não só com respeito mas com sentido estético. A violência, porque sustentada num código de valores, passou a ser glorificada. Ética e plasticamente glorificada.

Tudo isto para chegar a The Proposition (2005), um western passado no Outback australiano, em finais do século XIX, escrito pelo grinderman Nick Cave e realizado por John Hillcoat. O filme começa, à boa maneira de Peckinpah, com um tiroteio infernal, na sequência do qual o xerife inglês, Morris Stanley, captura dois dos três irmãos envolvidos no brutal assassinio de uma mulher grávida. Em vez de os enforcar como manda a lei, resolve fazer-lhes uma proposta: um fica detido e o outro é solto com a obrigação de trazer, vivo ou morto, o terceiro irmão, verdadeiro responsável material pelo crime. Se cumprir, os dois são libertados; se não, o irmão preso é executado, nove dias depois. É Natal. Stanley Morris quer civilizar a Austrália. Acha que é mais importante punir o responsável do que matar apenas para dar o exemplo. A sua mulher, Martha, serve chás no deserto em serviço de porcelana inglesa. Mas a Austrália não está para ser civilizada e a comunidade reaje à iniciativa de Morris, hostilizando-o. O filme é fabuloso. A planície australiana, com os seus "grandes espaços", a fazer a vez de Monument Valley. Um aterrador John Hurt, a representar como se se tratasse de Shakespeare. Milhares e milhares de moscas a pousar em tudo o que existe. Poeira e lama. A cabeça de um aborígena pelos ares. O canto do nómada e a canção do carrasco. Uma terra selvagem, povoada por selvagens, que agem selvaticamente por instintos. De vingança, de sadismo, se sobrevivência e de mimetismo. No meio disso, um homem que tenta racionalizar o seu instinto de justiça. E no fim, como também já não se usa, um final trágico. Trágico e aberto, para mais tarde especular.

12.4.07

Ainda a propósito de psicanálise e do PS

Há que não confundir Jacques Lacan com Jorge Lacão.

11.4.07

Do divan ao Correio da Manhã

Um dos pesadelos recorrentes de quem frequentou a universidade é constatar, a meio do sono, que ainda não acabou o curso. Que há cadeiras por terminar, ou - basta - que falta passar a uma cadeira. Que o exame é amanhã e que já não há tempo para estudar. Que, estando prestes a fazer algo para cuja prática o curso é requisito, somos descobertos. Apanhados, como naquele outro pesadelo em que se é apanhado nu a atravessar a rua. É um sonho universal. Jung, Freud, Perls, todos os grandes psicanalistas o estudaram. Alguns atribuem este pesadelo a um trauma com longos dias e longas noites de estudo. Outros, ao horror com que algumas pessoas ficaram da sua passagem pela Universidade. Outros ainda ao receio de assumir responsabilidades. Ou à aproximação de um teste na nossa vida. Há até aqueles (Wilhelm Stekel) que explicam este sonho com base no - tch, tch, tch, tchan - sexo. Independentemente das várias interpretações, num ponto estão todos de acordo: pesadelos como este só acontecem a quem concluiu o curso. Que a actualidade seja rasa e maçadora é uma inevitabilidade que se aceita. Agora que caricature um dos mais fascinantes clássicos do onirismo é que já começa a ser pouco simpático..

De Pink Flag aos Pink Floyd

6.4.07

You were always on my mind .. Mystery train ... the ghost of Elvis... who you gonna call: ghostbusters

Todos

Às tantas, no excelente Le Cercle Rouge, de Jean Pierre Melville, há o seguinte diálogo entre o ministro do Interior e um comissário da polícia: Não se esqueça, todos os homens são culpados. Mesmo os polícias? Todos. E não, a conversa não era sobre criminalidade.

31.3.07

Cygnet Committee*


(* Do meu tempo. De um tempo que já não foi o meu. De um tempo que, aliás, nunca existiu)

30.3.07

Based on a true story

Era um vez um homem tão calculista, tão calculista, que passou pela vida sem cometer qualquer erro. No fim, constatou que também não havia tomado qualquer posição. Era uma vez um homem tão cobarde, tão cobarde que passou pela vida sem tomar qualquer posição. No fim, ...

Uma cerveja no Inferno

Em Le Salaire de la Peur (1953), de Henri-Georges Clouzot, quatro homens são encarregues de transportar dois camiões carregados de nitroglicerina através dos caminhos acidentados de um qualquer país da América do Sul. Fazem-no por dinheiro ou porque não se importam de morrer. Depois de um prólogo de quase uma hora em que se sucedem as cenas de antologia, começa a viagem: quatro homens, dois camiões e uma carga mortal ao primeiro percalço. E depois chegam os vícios e virtudes humanas. Todas as misérias e grandezas. Todos os rasgos e acanhamentos. Só que Clouzot filma a coragem e a cobardia com a mesma distância apática. A generosidade e a vileza como se de características neutras se tratassem. Neste filme, o confronto entre o bem e o mal morais não é resolvido pelo cinema. É o espectador, com a sua particular ordem de valores, na comodidade ética do seu sofá que acaba por desempatar. Na altura em que o filme saiu, houve quem o qualificasse de antiamericano e anticapitalista (é ao serviço de uma companhia petrolífera americana que estes homens, em condições impiedosas, arriscam a vida). Mas não se trata de nada disso. O filme é - como é também The Treasure of Sierra Madre, de John Huston - um cruel tratado sobre a natureza humana. Não é antiamericano nem anti coisa nenhuma. É o que somos. Ou tudo aquilo que podemos escolher ser.

29.3.07


Levado pela estimulante epígrafe da Wire ao artigo sobre o novo Nick Cave, voltei a ouvir No Pussyfooting (1973), de Robert Fripp e Brian Eno, e posso garantir três coisas: 1) já não se fazem duplas assim; 2) sob a guitarra eléctrica, a praia; 3) a monotonia é um prazer fetichista.

27.3.07

Pessimismo

Identifica-se (e bem) a direita com o pessimismo antropológico. A desconfiança em relação à natureza humana e o descrédito numa suposta bondade inata. Mas isso não significa que o direitista seja um ser resignado. O pessimismo antropológico não é uma ideia determinista, mas sim um ponto de partida para tudo o resto. Curiosamente, é Gramsci, comunista e antifascista, quem melhor define o meu pessimismo: pessimista pela inteligência, optimista pela vontade. Pessimista na razão, optimista na acção.

As boas ideias

Não há nada pior para as boas ideias do que serem defendidas por um filho da puta.

23.3.07

The snob cheat sheet for confusing similarities

World on String/Word on a Wing/Wild is the Wind

18.3.07

No Pussyfooting with The Wild Bunch


No pussyfooting with Nick Cave's wild Bunch

Old, weird America (revisited)

Harry Everett Smith nasceu no dia 29 de Maio, em Portland, Oregon, na região do continente americano também conhecida por Pacific Northwest. Nasceu numa família pobre mas civilizada. A mãe, que dava aulas numa reserva índia, julgava-se uma Czarina russa e cantava canções irlandesas. O pai trabalhava para uma companhia de conservas e cantava cowboy songs. Pai e mãe viviam em casas separadas e encontravam-se apenas à hora do jantar. Ao longo da vida, Harry Smith fez um pouco de muita coisa: estudou antropologia em Seattle; ajudou a construir bombardeiros, durante a guerra, na Boeing; apresentou um programa de rádio em Berkley; fumou erva; pintou murais em São Francisco, ao som de Dizzy Gillespie, e quadros em Nova Iorque, com uma bolsa do Guggenheim; foi grande amigo de Allen Ginsberg; realizou filmes, escreveu poemas, estudou a Cabala e conviveu com modernistas e expressionistas do Lower East Side; viveu no Chelsea Hotel; morreu no Chelsea Hotel. E, desde o dia em que ganhou o seu primeiro dinheiro até ao último da sua vida, coleccionou milhares e milhares de discos, sobretudo 78 rotações, de todos os géneros da música popular americana, a partir dos quais ergueu aquela que é a sua obra para a posteridade.

A Anthology of American Folk Music, editada pela primeira vez em 1952, é muito provavelmente a mais importante e influente compilação de canções de toda a música popular. São seis discos (mais tarde passaram a oito) com um total de 84 (112) temas, gravados entre 1926 e 1932, e divididos em três capítulos - Ballads, Social Music, Songs - que retratam inúmeros géneros da música popular americana, do cajun ao ragtime, do honky tonk ao bluegrass, do hillbilly aos espirituais. É a fonoteca de Babel da música pop. A verdadeira "old, weird America" de que falava Greill Marcus. Que subsiste, por via dos pais que ouviam os avós que ouviam os bisavós, na música de todos aqueles que por ela se deixaram encantar, dos Dylans aos Becks aos Sringsteens, Caves, Grindermen e companhia.

Acaba agora de sair The Harry Smith Project: The Anthology Of American Folk Music Revisited, uma homenagem a Harry Smith pensada e organizada por Hal Willner, um produtor especializado em tributos, com música do baú smithiano tocada e cantada por gente como Elvis Costello, Wilco, Sonic Youth, Beth Orton, David Thomas, Richard Thompson ou Van Dyke Parks. Nem de perto nem de longe ao nível da matéria prima de que se alimenta. Mas, ainda assim, um óptimo disco. Para fans da Old, Weird América. Ou da América, simplesmente.

17.3.07

13.3.07

Um bom epitáfio é meio caminho para uma grande vida

Malcolm Lowry
Late of the Bowery
His prose was flowery
And often glowery
He lived, nightly, and drank, daily
And died playing the ukelele.

12.3.07

a whole climate of opinion (2)


Porque é que, na publicidade, a mulher é tantas vezes usada como objecto sexual?
Porque vende.

11.3.07

Seis nações (4.ª jornada)


Ainda há esperança. Para isto e para o que de facto interessa.

9.3.07

De esquerda

Pois, eu também prefiro mulheres de esquerda. Mas só para programas de esquerda.

a whole climate of opinion

Uma das expressões inglesas de que mais gosto é "climate of opinion". Significa qualquer coisa como o ambiente intelectual ou público-opinativo de uma determinada época ou momento histórico - para exemplificar, pode dizer-se que, nos anos sessenta, o climate of opinion era bastante libertário. Mas onde a expressão adquire o seu sentido mais espantoso, é num poema de W. H. Auden, sobre Freud, que passo a citar: (...) for one who'd lived among enemies so long:/ if often he was wrong and, at times, absurd,/ to us he is no more a person/ now but a whole climate of opinion (...)

História trágico-marítima

'A woman has ten claws,'
Sang the drunken boatswain;
Farther than Betelgeuse
More brilliant than Orion
Or the planets Venus and Mars,
The star flames on the ocean;
'A woman has ten claws,'
Sang the drunken boatswain.

(Above 80º N.
)Philip Larkin, 1944

4.3.07

My own private Babel

Paris, Nova Iorque, anos 70. Pelas ruas circulam judeus, nazis, manifestantes antipoluição, um esquerdista voluntarioso que quer escrever uma tese sobre McCarthy e correr a maratona, e uma "suíça", gira, que acaba na cama com ele. Outra vez Paris, anos 50. Quatro prisioneiros recebem um novo companheiro de cela e ponderam contar-lhe o plano que têm para fugir da prisão. Tóquio (ou outra qualquer cidade no Japão). 1999. Um homem de cinquenta anos, viúvo, pretende voltar a casar. Com a ajuda de um amigo, simula um casting a fim de conhecer mulheres das quais escolherá uma para ser sua. Três pontos de partida para três filmes de géneros bem diferentes: thriller político, filme prisão e filme vingança com toques de fantástico e gore. John Schlesinger, Jacques Becker e Takashi Miike. Marathon Man, Le Trou e Audition.

O thriller político feito na américa de finais dos anos 60/70, por cineastas liberais, como John Schlesinger, Alan J. Pakula (All the President's Men, The Parallax View), Sydney Pollack (The Three Days of the Condor), Fred Zinneman (The Day of the Jackal) ou John Frankenheimer (The Manchurian Candidate, Seven Days in May). Filmes para adultos, plot com pés e cabeça, heroísmo minimal, moral seca, interpretações contidas - longe, muito longe, do tantas vezes cansativo método stanislavsky.

O cinema realista francês off-nouvelle vague, de que Le Trou é paradigma (Jean-Pierre Melville é outro autor muito cá de casa), com cuidado no detalhe, quer físico quer psicológico, ausência de música (de fundo ou outra), ritmo só aparentemente lento da acção. Le Trou é daqueles filmes que nos conquista sem percebermos bem como. Pouco tempo depois de começar, somos possuídos pela sensação de estar dentro daquela cela, com aqueles homens, a escavar o buraco e o túnel que os levará (?) à liberdade. É um filme que se vê de dentro da acção. Daí a sua intensidade dramática. Nós não conhecemos os prisioneiros; nós somos os prisioneiros. E é por isso que queremos que tudo (nos) corra bem.

Do Japão, de Taiwan, da Coreia, de Hong Kong, vem muito do que de melhor se faz hoje em cinema. A infantilização e a correcção política, por um lado, e o pedantismo arthouse por outro, ainda não chegaram ao extremo oriente cinéfilo. Ou, pelo menos, não são exportados de lá para cá. Audition é um filme que me faz lembrar Philip K. Dick. Premissas perfeitamente admissíveis, para situar quem segue a história numa realidade que lhe é de algum modo familiar: um homem mais velho quer voltar a casar, nada mais natural. Esse homem forja um esquema para conhecer mulheres, nada mais natural. Um homem conhece uma mulher, é a história de sempre a repetir-se. E daí partimos para um outro mundo (ou não), para um pesadelo (ou não), onde permanece o homem normal, com vícios e aspirações normais, mas agora imerso num cenário de terror e sadismo quase inumano; quase, porque a mulher, ao que se sabe, ainda é humana. Ao pé daquilo que Eihi Shiina faz a Ryo Ishibashi, os dentes arrancados por Sir Laurence Olivier a Dustin Hoffman não passam de um beijo na boca. É grande a dúvida sobre o universo onde entretanto se passa a situar o filme. São dadas pistas em sentidos divergentes: pode ser um sonho, pode ser realidade; pode ser um sonho dentro de um outro sonho. No fim, fica a incerteza e a perplexidade. O que é bom - pois o cinema é também para gozar depois da sessão.

3.3.07

Prison break ?

2.3.07

Morricone B e Z (II)



Um western spaguetti ou um melodrama erótico, um policial manhoso ou um giallo, um Lucio Fulci ou um Samuel Fuller, quase todos de baixíssimo orçamento, tanto fazia, pouco interessava. Durante anos, Enio Morricone foi aceitando todo o trabalho que lhe era proposto, ao ponto de ser hoje autor de quatrocentos e tal bandas sonoras para filmes dos mais variados géneros e sub-géneros cinematográficos. Variedade a que responde, na sua sua música, com uma não menor diversidade de sons - os sons de que é feito o som Morricone: guitarras distorcidas e música concreta, percurssões africanas e gemidos ofegantes, arabismos psicadélicos e ritmos afunkalhados, bop e pop, cordas e coros, Miles Davis e Gil Evans, crime e dissonância. São dezenas e dezenas de discos. Este, compilado por Mike Patton e recomendado por John Zorn, é apenas um pequena amostra. Quem quiser ir por aí afora tem muito onde gastar e bastante com que se entreter.

28.2.07

Morricone B e Z

Il federale, I marziani hanno 12 mani, Duello nel Texas, I maniaci, The Bible, Agente 077: Missione Bloody Mary, The Thing, Sai cosa faceva Stalin alle donne?, Sette pistole per i Mac Gregor, Navajo Joe, L'harem, La sindrome di Stendhal, Danger: Diabolik, Galileo, Comandamenti per un Gangster, Two Mules for Sister Sara, Il gatto a nove code, Bluebeard, I racconti di Canterbury, Dalle Ardenne all'inferno, Holocaust 2000, Gli amanti d'oltretomba, Der Richter und sein Henker, Indagine su un cittadino al di sopra di ogni sospetto, Bloodline, Le professionnel, White Dog, Quando le donne avevano la coda, Red Sonja ...

27.2.07

Fim de semana alucinante nas ilhas Britânicas (apesar de O'Toole)

Consagração da Rainha, do último rei da Escócia, e sova (43-13) da Irlanda à Inglaterra, no torneio das seis nações. Dylan Thomas manteve-se morto.

26.2.07

Já não há qualquer tipo de respeito


Obrigam este senhor a sair do conforto da sua casa, a passar mais de dez horas preso num avião, a ficar quase cinco sentado e longe de um bar, a ouvir a prédica de Al Gore (onde está Lee Oswald quando precisamos dele), a expor a sua perfeição em adiantado estado de dissolvência, a observar com olhos transparentes a boçalidade de uma Céline Dion, e no fim não lhe dão a porra do Óscar, uma ovação de pé, um “obrigado” por tudo o que fez.

24.2.07


Heaven, por Jarvis Cocker
17 de Fevereiro de 2007, Astoria, Charing Cross, Londres

23.2.07

O metro londrino está perigoso

Acabaram as bombas do IRA mas há gente a ler Chomsky.

Quem procura sempre encontra


Stereolab/Nurse With Wound, Crumb Duck
Clawfist, 1993
£ __, Intoxica, 231 Portobello Road, London, W11


Nurse With Wound, Drunk With The Old Man Of The Mountains
United Dairies, 1987
£ __, Rough Trade, 130 Talbot Road, London, W11 1JA


Moondog, Moondog and his Honking Geese
Moondog Records, 1955
£ __, Rough Trade, 130 Talbot Road, London, W11 1JA